Microfisioterapia | Terapia Manual | Instituto Salgado de Saúde Integral

Blog / Artigos

25/04/2017

Quando o corpo fala


Doenças psicossomáticas são desconcertantes  tanto para pacientes como para médicos. Porém , na maioria das vezes, acontecem por uma razão: a tristeza humana pode ser blindada às palavras.



Pauline, 25 anos foi admitida num hospital com dor e edemas em suas pernas que nenhuma dosagem de morfina poderia acalmá-la .Era a sua terceira admissão no hospital devido a mesma condição. Por 12 anos, ela havia se mantido entre idas e vindas em hospitais com sintomas diferenciados e testes invasivos nunca puderam evidenciar qualquer tipo de explicação. Naquela manhã, foi avisada pelo seus médicos que já não havia mais nenhum exame a ser feito ,que já tinham exaurido todas as possibilidades de encontrar a causa das suas dores e que ela poderia retornar a sua casa.

Uma hora depois, enquanto Pauline arrumava suas malas, ela perdeu a consciência . Uma vez que restabeleceu a consciência , ela foi levada à sua cama. Porèm, assim que deitou-se, ela começou a ter convulsões . Quando sua mãe chegou pra leva´-la pra casa, Pauline já estava em sua terceira crise convulsiva. Eu conheci Pauline pouco tempo depois.


Desde a faculdade,eu sabia que queria ser neurologista. Eu apreciava o drama de ser um tipo de “detetive”, resolvendo os mistérios de como o sistema nervoso comunica suas mensagens e aprendendo também como tudo pode dar errado. Doenças neurológicas apresentam-se de forma peculiares e estranhas. Quando iniciei a minha carreira, eu não poderia prever o quanto eu me sentiria atraída para o tratamento das enfermidades oriundas não do corpo, mas sim da mente.


A sociedade moderna aprecia a idéia de que ,através de pensamentos positivos, podemos nos tornar pessoas melhores. Quando estamos mal, tendemos a dizer para nós mesmos que, se assumirmos uma atitude mental positiva, teremos uma boa chance de recuperação. Tenho certeza que isso é correto. Porém, ainda não acordamos para o fato de que - o oposto - pensar negativamente - pode inconscientemente trazer doenças.


Doenças psicossomáticas levam a reais situações de estresse e devem ser encaradas como desordens como qualquer outra. Podem afetar qualquer parte do corpo. Não obedecem a nenhuma regra. Em uma pessoa podem causar dor. Não é incomum, por exemplo, uma pessoa que está com estresse ter palpitações cardíacas. Doenças psicossomáticas podem também manifestar-se  em situações extremas menos comuns como paralisias e convulsões.

Quase qualquer sintoma que possamos imaginar quando estamos em aflição podem tornar-se reais  - tremores, fadiga, distúrbios de fala, dormência nos membros, etc.




Numa média diária, um terço das pessoas que fazem visitas ao seu médico tem diagnósticos que nem sempre tem explicação. Claro, nem sempre um sintoma sem explicação é considerado uma doença psicossomática. Sempre haverão doenças que alongam os limites do conhecimento. Porém, entre aqueles com sintomas físicos não diagnosticados estão um grupo elevado que não encontram diagnóstico porque não existe a doença para ser encontrada. Nessas pessoas, os sintomas não explicáveis pela medicina tradicional  podem ser ,inteiramente ou parcialmente, explanados por razões psicológicas ou comportamentais.


Desordens psicossomáticas são sintomas físicos que mascaram angústias emocionais. A verdadeira natureza da manifestação física desse sintoma esconde a angústia como sua origem, então é natural que aqueles afetados busquem racionalizar enfermidades para explicar seu sofrimento. Estes buscam orientação em qualquer outra especialidade menos a psiquiatria. O neurologista é a especialidade que encontra maior número de casos provenientes de doenças psicossomáticas.


Tenho encontrado pessoas nas quais a tristeza é tão esmagadora que mal podem suportar esse sentimento. No lugar acabam desenvolvendo  afecções físicas. Ao contrário de qualquer lógica, o subconsciente dessa pessoa escolhe ser abalado por convulsões ou dependência em cadeira de rodas do que experimentar a angústia que reside dentro dele.

Tenho ficado espantada com o grau de incapacidade  que cresce como resultado de doenças psicoemocionais. Elas acontecem por uma razão. Quando palavras não estão disponíveis, por alguma razão nosso corpo fala por nós - e temos que escutá-lo.


Um caso sobre convulsão


Existe apenas uma situação para sabermos com confiança quando a pessoa perde a consciência que é presenciando a mesma. Muitas vezes “blackouts” tem um agente desencadeador. Na epilepsia os gatilhos podem vir desde luzes piscando ou por privação do sono. Quando os gatilhos não são claramente evidenciados, o exame por vídeo telemetria tem um imenso valor.


Na unidade de vídeo telemetria ,os pacientes são restritos à um quarto onde são submetidos à constante vigilância via vídeo - enquanto eletrodos acoplados no crânio são monitorados 24 horas por meio de ondas cerebrais no padrão EEG.

A atividade elétrica do cérebro revela se a pessoa está desperta ou sonolenta,consciente ou inconsciente a todo momento. Se uma pessoa desmaia de desidratação ou excesso de calor, a primeira reação fisiológica é uma queda na pressão sanguínea. O coração detecta o problema e tenta compensar com um aumento na frequência cardíaca. Se a frequência cardíaca não for suficiente para compensar a queda da pressão sanguínea , então ,por um momento, sangue vital é direcionado do cérebro. Quando o cérebro é privado de oxigênio, as ondas cerebrais sofrem uma queda dramática levando o paciente a perder a consciência.

A causa dos “blackouts” podem provir não somente pela alteração da pressão sanguínea ou cardíaca, mas sim por alterações do cérebro, como no caso de de doenças como epilepsia,  e as sequências dos eventos fisiológicos é diferente.

Cada padrão convulsivo juntamente com o vídeo do colapso sugerem um diagnóstico específico, e este geralmente é confiável.

“ Eu analisei cuidadosamente cada um dos seus episódios convulsivos”, eu disse à Pauline.

“ A novidade é que eu não observei o padrão de convulsões epilépticas que eu estava esperando; você realmente não sofre de epilepsia. O eletrocardiograma está normal e o coração está saudável, que já é um alívio. Quando analisei as ondas cerebrais durante as suas convulsões, eu observei que elas mostraram um padrão que eu poderia esperar em alguém que está consciente - um padrão de vigília.”

As ondas cerebrais estavam normais e assim sendo, há somente uma razão para que as pessoas possam estar inconscientes dos seus arredores com um cérebro trabalhando normalmente - essa “ perda de consciência” é causada por algum distúrbio psicológico e não um distúrbio do cérebro.

“ Você está dizendo que eu inventei tudo isso?”

“Não Pauline, eu sei que suas convulsões são reais. Porém elas  derivam-se do subconsciente e não por uma afecção cerebral. Uma maneira extrema que o corpo responde à raiva e chateações é manifestar-se através de blackouts e convulsões. Esse tipo de convulsão é conhecido como convulsão dissociativa. Dissociação significa que houve uma ruptura na sua mente sobre o que está acontecendo com você. Esta ruptura significa que uma parte de você não sabe o que a outra parte está fazendo. Não é por querer. Estas convulsões que você sofre é o seu corpo lhe dizendo que algo não está bem. Um psiquiatra poderia ajudar-lhe a entender o que está acontecendo contigo. Eu acho que essas convulsões são curáveis Pauline.”


Manifestações físicas de infelicidade são coisas que todos nós experimentamos, elas não são

só defeitos de personalidade ou sinais de fraqueza, elas são parte da vida. A vida pode ser difícil algumas vezes. Mais para uns que outros. E manifestamos dificuldades em maneiras diferentes: Alguns choram, alguns reclamam,alguns dormem,outros bebem, comem, ficam com raiva e outros sofrem como Pauline.




Susanne O´Sullivan, MD

Tradução extraída da Revista Psychology Today - Feb 2017 . Intimacy issue. pg 73-75